quinta-feira, 24 de maio de 2012

Reflexão sobre Fernando Pessoa


Muitas vezes associamos a nossa própria imagem a algo completamente irreal e impensável. Pensamos e temos uma ideia de nós próprios, que nem nós mesmos sabemos porque a temos. Possivelmente porque interpretamos as nossas acções e achamos que elas se aproximam, adequam ou simplesmente são reflexos de sentimentos como a alegria, o amor ou a amizade por alguém.
Mas, de um momento para o outro, toda a imagem que temos de nós próprios se destrói. Parece que à nossa frente se abriu um enorme buraco ou precipício, parece que a nossa vida acabará ali e que não mais seremos nós mesmos...

Chega a parecer que já não mais poderemos ser nós mesmos como um todo, mas que apenas conseguimos sentir alegria com amor ou amor com alegria, que só conseguimos sentir uma emoção ao mesmo tempo.
Passamos a ser uma pessoa "aos bocados" e mesmo que tentemos juntar aqueles pedaços de nós mesmos, isso parece inalcançável. Somos forçados a ser quem não somos, por algo que faz parte de nós
Resumidamente, não podemos que elementos exteriores nos fragilizem e que nos deixem dividir em fragmentos de nós mesmos. Temos de manter a nossa própria integridade mesmo que isso pareça impossível. Mas, não é por termos perdido um pouco de nós que nos podemos "dar ao luxo" de perder o resto que nos pertence.




terça-feira, 22 de maio de 2012

Álvaro de Campos- Aniversário


Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...




Análise:

No poema Aniversário, Álvaro de Campos contrapõe o tempo da infância ao tempo presente. A época da infância é marcada pela inocência, pois a criança não tem noção do que se passa à sua volta: “Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma”.

A passagem de criança para adulto é marcada por uma perda, pois se percebe que a vida não tem sentido.

O poeta hoje “é terem vendido a casa”, ou seja, é um vazio, que perdeu a sensação de totalidade, de alegria, de aconchego dada pela vida em família na infância distante. Assim, a festa de aniversário toma o aspecto simbólico de um ritual familiar, dentro do qual a criança se torna o centro de um mundo que a acolhe e protege carinhosamente.

No presente, não há mais aniversários nem comemorações: resta ao poeta durar, porque o pensamento o impede de ter a inocência de outrora.

Álvaro de Campos

Álvaro de Campos, nasceu em Tavira em 1890. Era um homem viajado. Depois de uma educação vulgar de liceu formou-se em engenharia mecânica e naval na Escócia e, numas férias, fez uma viagem ao Oriente (de que resultou o poema “Opiário”). Viveu depois em Lisboa, sem exercer a sua profissão. Dedicou-se à literatura, intervindo em polémicas literárias e políticas. É da sua autoria o “Ultimatum”, manifesto contra os literatos instalados da época. Apesar dos pontos de contacto entre ambos, travou com Pessoa ortónimo uma polémica aberta. Protótipo da defesa do modernismo, era um cultivador da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva do progresso, de que a Ode Triunfal é um dos melhores exemplos, evoluindo depois no sentido de um tédio, de um desencanto e de um cansaço da vida, progressivos e auto-irónicos.
 
 

Ricardo Reis - Para ser grande,sê inteiro


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.


Análise:

Reis defende que o homem "seja inteiro sem a fé". É um princípio basilar da filosofia de Reis que o homem encontre no seu sofrimento a sua nobreza, ou seja, que aceita a dor da vida de maneira inteira, que seja inteiro nesse sofrimento, mesmo que não seja inteiro numa fé. É mesmo por não ser inteiro numa fé que o homem deve ser forte em ser inteiro na realidade.

"Para ser grande, sê inteiro", diz Reis. O homem, porque aceita a realidade, deve ter uma atitude nobre mesmo perante o sofrimento que vem com essa aceitação.
"Nada teu exagera ou exclui". Reis defende que o homem abdique de tudo, mas que não abdique de si próprio. Apenas aquilo que é ilusório deve ser retirado da experiência humana, porque traz ao homem apenas humilhação. Entre essas coisas estão a religião e o amor.

"Sê todo em cada coisa". Ou seja, acha em cada coisa a tua inteira felicidade, porque a felicidade, se está nos objectos, não está na realidade. E é no campo estrito dos objectos, e não da vida, que o homem expressa a sua personalidade.

Ricardo Reis

Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, tendo recebido, por isso, uma educação clássica (latina). Estudou (por vontade própria) o helenismo, isto é, o conjunto das ideias e costumes da Grécia antiga (sendo Horácio o seu modelo literário). A referida formação clássica reflecte-se, quer a nível formal, quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado.


Apesar de ser formado em medicina, não exercia. Dotado de convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Caracterizava-se por ser um pagão intelectual lúcido e consciente (concebia os deuses como um ideal humano), reflectia uma moral estoico-epicurista, ou seja, limitava-se a viver o momento presente, evitando o sofrimento (“Carpe Diem”) e aceitando o carácter efémero da vida.


Odes de Ricardo Reis

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Poemas de Alberto Caeiro

Dizem que em cada Coisa uma Coisa Oculta Mora

Dizem que em cada coisa uma coisa oculta mora.
Sim, é ela própria, a coisa sem ser oculta,
Que mora nela.

Mas eu, com consciência e sensações e pensamento,
Serei como uma coisa?
Que há a mais ou a menos em mim?
Seria bom e feliz se eu fosse só o meu corpo -
Mas sou também outra coisa, mais ou menos que só isso.
Que coisa a mais ou a menos é que eu sou?

O vento sopra sem saber.
A planta vive sem saber.
Eu também vivo sem saber, mas sei que vivo.
Mas saberei que vivo, ou só saberei que o sei?
Nasço, vivo, morro por um destino em que não mando,
Sinto, penso, movo-me por uma força exterior a mim.
Então quem sou eu?

Sou, corpo e alma, o exterior de um interior qualquer?
Ou a minha alma é a consciência que a força universal
Tem do meu corpo por dentro, ser diferente dos outros?
No meio de tudo onde estou eu?

Morto o meu corpo,
Desfeito o meu cérebro,
Em coisa abstracta, impessoal, sem forma,
Já não sente o eu que eu tenho,
Já não pensa com o meu cérebro os pensamentos que eu sinto meus,
Já não move pela minha vontade as minhas mãos que eu movo.

Cessarei assim? Não sei.
Se tiver de cessar assim, ter pena de assim cessar,
Não me tomará imortal.




Alberto Caeiro - Querem uma Luz Melhor que a do Sol!


AH! QUEREM uma luz melhor que
a do Sol! Querem prados mais verdes do que estes! Querem flores mais belas do que estas que vejo! A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me. Mas, se acaso me descontentam, O que quero é um sol mais sol que o Sol, O que quero é prados mais prados que estes prados, O que quero é flores mais estas flores que estas flores - Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!





Análise:

Apesar da posição em que a figura humana se encontra, com os braços e as pernas esticadas e afastadas transmitir uma sensação de felicidade, liberdade semelhante ao espírito de pureza, inocência e espontaneidade de uma criança que conhece as coisas pelos sentidos como o próprio autor e a que Caeiro faz referência em diversos poemas, podemos associar o facto de ela estar a saltar a um desejo de querer mais e de alcançar algo melhor que a realize, tal como Fernando Pessoa ortónimo, que nunca estava satisfeito com o mundo, pois tinha de racionalizar tudo, o que o aborrecia. Contrariando esta dor de pensar com uma atitude anti-metafísica, Alberto Caeiro é feliz porque se recusa a pensar, a ponderar sobre as barreiras da vida, apreciando assim o melhor que lhe podem dar, a pureza da natureza. Voltando á imagem, no plano onde esta mulher se encontra, podemos verificar que o ambiente que a envolve está mais calmo, o que pode se pode associar ao seu estado de felicidade. Refiro-me ao estado límpido do céu, e á ausência de movimento do mar, provocado por uma brisa.