terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Liguagem e Estilo em "Frei Luis de Sousa"

Frei luís de Sousa é antes de mais um texto dramático e, por isso mesmo, utiliza o diálogo e o monólogo. Estas técnicas discursivas apresentam características específicas resultantes da sua natureza coloquial e oral. Deste modo, é possível verificar a qualidade linguística e estilística utilizada por Garrett. Os registos de língua presentes nesta peça são o familiar e o cuidado.
Em termos lexicais, verifica-se a utilização recorrente de palavras conotadas com emoções, repetições frequentes (como a do advérbio hoje), interjeições e locuções interjectivas e uma concentração a nível frásico que é o caso de – ninguém - onde se substitui um período por uma palavra.
No que diz respeito à sintaxe, verifica-se um grande número de frases inacabadas e concentradas, devido às hesitações deixadas pelo discurso emotivo das personagens. Em termos de prosódia, a entoação, as pausas e o ritmo fornecidos pelas didascálias reforçam a intensidade dramática e emotiva.
No que diz respeito à pontuação (exclamações, interrogações, reticências), esta acompanha o discurso emotivo das personagens, reforçando-o pela natureza expressiva. É possível verificar também no discurso de cada personagem especificidades que estão de acordo com as características de cada uma.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Elementos Simbólicos em "Frei Luis de Sousa"

Elementos clássicos e românticos

«Elementos clássicos

 No desfecho temos a presença do destino como castigo do amor de D. Madalena por D. Manuel

 Destino: força superior que transcende a vontade das personagens e perante a qual as personagens se tornam indefesas

 Presságios: Fogo (destrói a família e destrói o retracto); Leituras (Lusíadas e Menina e Moça)

 Phatos: crescente de aflição e de angústia que conduz ao clímax da acção através de uma precipitação de acontecimentos através dos presságios.

 Hybris: desafio lançado aos deuses ou às autoridades (atitude de D. Madalena ao casar com D. Manuel)

Clímax: auge do sofrimento

Peripécias: mutação repentina da situação

Anagnorisis: reconhecimento ou constatação dos motivos trágicos

Moira ou fatum: força do destino

 Catástrofe: desfecho trágico


«Elementos românticos

Narcisismo/ hipertrofia do eu: as personagens dão construídas a partir de uma projecção. Almeida Garrett transporta o seu problema de amor para D. Madalena e transporta o problema da filha ilegítima para Maria

Preferência pelas horas sombrias: o desenrolar da acção passa-se essencialmente à noite ou de madrugada.

· Culto da mulher-anjo: na personagem de Maria

· Nacionalismo/ patriotismo: nas atitudes de Manuel de Sousa

Preferência por personagens imperfeitas: D. Madalena que se apaixonou ainda casada

· Religiosidade

· Mitos/superstição

 Infracção e pecado

 Individualismo contra sociedade: Manuel de Sousa Coutinho decide o que há-de fazer porque a sociedade aponta Maria como filha do pecado, o 1º casamento seria inválido

 Liberdade contra destino: Ao escolher o amor, D. Madalena comete uma infracção à religião e costumes e o destino castiga essa acção. Será então o homem livre ou será dominado pelo destino? Tudo o que fará por escolha própria estará sujeito a castigo por parte do destino?


Sebastianismo

Ficheiro:Rei D. Sebastião.jpgO Sebastianismo foi um movimento místico-secular que ocorreu em Portugal na segunda metade do século XVI como consequência da morte do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578. Por falta de herdeiros, o trono português terminou nas mãos do rei Filipe II da rama espanhola da casa de Habsburgo. Basicamente é um messianismo adaptado às condições lusas e à cultura nordestina do Brasil. Traduz uma inconformidade com a situação política vigente e uma expectativa de salvação, ainda que miraculosa, através da ressurreição de um morto ilustre.

O povo nunca aceitou a morte do rei, divulgando a lenda de que ele ainda se encontrava vivo, apenas esperando o momento certo para voltar ao trono e afastar o domínio estrangeiro.

O seu mais popular divulgador foi o sapateiro de Trancoso, Bandarra, que previu nas suas trovas o regresso do Desejado (como era chamado D. Sebastião). Explorando a crendice popular, vários oportunistas apresentaram-se como o rei oculto na tentativa de obter benefícios pessoais. O maior intelectual a aderir ao movimento foi o Padre Vieira.

No dia 1 de Dezembro de 1640, um grupo de conjurados chefiados pelo Duque de Bragança (futuro D. João IV - dinastia de Bragança), depôs em Lisboa o representante de Filipe III e restaurou a independência de Portugal e o movimento tomou novas características por todo o Império Português, especialmente no interior do Nordeste brasileiro, onde tomou a forma de crença na chegada de um "rei bom".

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Espaço em "Frei Luis de Sousa"

Espaço

· Acto 1º

Palácio de Manuel de Sousa Coutinho, em Almada.

Câmara antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegância portuguesa dos princípios do século XII. É, pois, um espaço sem grades, amplamente aberto para o exterior, onde as personagens ainda gozam a liberdade de se movimentarem guiadas pela sua vontade própria. Através das grandes janelas rasgadas domina-se uma paisagem vasta. – É o fim da tarde.

· Acto 2º

Palácio que fora de D. João de Portugal, em Almada, que agora pertença a D. Madalena.

Salão antigo de gosto melancólico e pesado, com grandes retratos de família, muitos de corpo inteiro; estão em lugar de destaque o de el-rei D. Sebastião, o de Camões e o de D. João de Portugal. Portas do lado direito para o exterior, do esquerdo para o interior, cobertas de reposteiros com as armas dos Condes de Vimioso. Deixa de haver janelas e as portas, ainda no plural, são já mais destinadas a cercar as personagens que a deixá-las escapar.

· Acto 3º

Parte baixa do Palácio de D. João de Portugal, comunicando pela porta à esquerda do espectador, com a capela da Senhora da Piedade na Igreja de S. Paulo dos Domínicos de Almada: é um casarão sem ornato algum. Arrumadas às paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras, cruzes e outros objectos próprios para uso religioso. É alta noite.

· Qual é o tratamento dado ao espaço no Frei Luís de Sousa?

Progressão em termos negativos. Há um afunilamento quer a nível de luz, decoração ou amplitude. Ou seja, vai evoluindo no sentido da acção: vão surgindo acontecimentos que afectam a vida normal familiar e que culmina com a morte de Maria. A acção caminha no sentido da destruição, a par do tratamento que vai sendo dado ao espaço.

· Espaço social (costumes e mentalidades que definem uma época)
>> Características do palácio de D. Manuelà família da aristocracia;
>> Madalena lendoà Sendo mulher, usufrui de educação;
 >>A existência de Telmo, Doroteia, Miranda;
>> Maria lendo “Menina e Moça” de Bernardim Ribeiro;
>> D. João servia ao lado de D. Sebastião;
>> Peste à população com más condições; a Almada não chega a peste devido à falta de comunicação;
>> Os casamentos não eram feitos por amor à D. Madalena casa com D. João por obrigação;
>>D. Madalena fica com tudo o que era de D. Joãoà os casamentos eram feitos com base na partilha;
>> Maria é uma filha ilegítima por ser filha de um segundo casamento;
>> Más comunicações: um cativo na terra santa não consegue fazer saber-se que está vivo e a família também não o encontra;
>>O marido funciona, muitas vezes, com pai da esposa, pois esta é muito mais nova que ele.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Caracterização dos personagem em "Frei Luis de Sousa"

Maria de Noronha

Uma personagem idealizada:

- A ingenuidade, a pureza, a meiguice, o abandono, etc., próprios duma alma infantil, e a inteligência, a experiência, a cultura, a intuição, características de um espírito adulto, confluem numa personagem pouco real, só entendida à luz do desvelo que Garrett votava a sua filha Maria Adelaide e à condição social que, para a mesma, resultara da morte prematura da mãe;
- Protótipo da mulher-anjo, tão do agrado dos românticos, Maria é demasiado angélica para ser verdadeira;
- A sua dimensão psicológica resulta, por isso, contraditória, ao revelar comportamentos, simultaneamente, de criança e de adulto;

 Alguns traços caracterizadores de Maria:
- Ternura
- Culto sebastianista
- Dom de sibila (dom da profecia)
- Cultura
- Coragem, ingenuidade e pura
- Tuberculose


Manuel de Sousa Coutinho  

 

Nobre, cavaleiro de Malta
- No acto I, assume uma atitude condizente com um espírito clássico, deixando transparecer uma serenidade e um equilíbrio próprios de uma razão que domina os sentimentos e que se manifesta num discurso expositivo e numa linguagem cuidada e erudita:
- Revela-se patriota, corajoso e decidido;
- Não sente ciúmes pelo passado de Madalena;
- No acto III, evidencia uma postura acentuadamente romântica: a dor, após a chegada do Romeiro, parece ofuscar-lhe a razão, tal é a forma como exterioriza os seus sentimentos, fazendo-o de uma forma um tanto violenta, descontrolada e, por vezes, até contraditória (a razão leva-o a desejar a morte da filha e o amor impele-o a contrariar a razão e a suplicar desesperadamente pela sua vida);
- Pode-se, pois, concluir que esta personagem, do ponto de vista psicológico, evolui de uma personalidade de tipo clássico (actos I e II) para uma personalidade de tipo romântico (acto III).



 D. Madalena de Vilhena


 Uma mulher bem-nascida, da família e sangue dos Vilhenas, os sentimentos dominam a razão:
Não é uma figura típica da época clássica, em que vive, em oposição ao que acontece com Manuel de Sousa. Toda a ordem abstracta de valores encontra nela uma ressonância pouco profunda, todo o idealismo generoso se empobrece dentro dos limites de um seu conceito prático, objectivo, pessoal de felicidade imediata, toda a espécie de transcendência choca, numa zona muito íntima da sua personalidade, com uma aspiração vitalista de realização humana e terrena.
- O sentimento do amor à Pátria é praticamente inexistente: considera a atitude dos governadores espanhóis como uma ofensa pessoal;
- Para ela, é inaceitável que o sentimento do amor de Deus possa conduzir ao sacrifício do amor humano, não compreendendo, nem aceitando a atitude da condessa de Vimioso que abandonou o casamento para entrar em votos: isto explica que, até ao limite, tente dissuadir o marido da tomada do hábito, só se resignando quando tem a certeza de que ele já foi;
- Apesar de se não duvidar do seu amor de mãe, é nela mais forte o amor de mulher, ao contrário do que acontece com Manuel de Sousa Coutinho, que se mostra muito mais preocupado com a filha do que com a mulher;
- A consciência da sua condição social mantém a sua dignidade, mas tal não impediu de ter amado Manuel de Sousa ainda em vida de D. João de Portugal e de ter casado com aquele sem a prova material da morte deste.



Frei Jorge Coutinho



Frei Jorge, irmão de Manuel de Sousa Coutinho, frade domínico. Primando pela serenidade, representa o consolo cristão, a fé como aceitação de todas as coisas, porque crê que as situações com que os homens se deparam escapam à sua compreensão, mas espelham a vontade de Deus. Pelo seu papel de confidente, que o leva a manifestar-se sobre os acontecimentos, desempenha, como Telmo Pais, um papel semelhante ao do coro das tragédias clássicas antigas.




D. João de Portugal - Romeiro

D. João foi guerreiro na Batalha de Alcácer Quibir, sob as ordens de el-rei D. Sebastião. É uma personagem que a nível bélico é considerada espelho de cavalaria.

Possui um carácter forte e decisivo, rígido e em certa parte vingativo, (sendo este rancor vencido pela benevolência, pela pureza e pela bondade). É desejado e invocado consequentemente por Telmo seu aio, que numa evolução psicológica final, contraria os sentimentos demonstrados nas acções anteriores. Quando regressa para demonstrar a fidelidade e lealdade a Madalena depara-se com factos que o surpreendem alterando o seu objectivo principal. Nesse momento D. João sente um grande vazio interior, pois não tem nem família, nem parentes, apenas um amigo (Telmo) que o deixou de ser da forma que outrora o foi.

Em relação aos aspectos físicos D. João possui barbas e cabelos compridos, que seriam demasiado alvos em relação à sua idade. Com traços faciais carregados. As vestes elementares e deterioradas, acompanhadas de um bordão com as conchas de San Tiago, símbolo dos peregrinos. Tendo em conta, que no passado foi um elegante e aposto cavaleiro moço.

 
 
  
 
 
 
 
 
 Enquanto D. João de Portugal                                                                    Enquanto Romeiro
 
 
Telmo Pais
A personalidade de Telmo é caracterizada pela grande cultura adquirida ao longo dos anos através da sociabilização e dos livros, tendo em conta que foi aio e escudeiro de D. João de Portugal e camarada de seu pai. No desenrolar da obra, Telmo, apresenta a sua personalidade dividida enquanto ao amor e à fidelidade que sente pela sua escolar Maria (fruto do segundo casamento de Madalena, de que Telmo não concordou) e pelo seu outro educando, D. João de Portugal.
Outra característica psicológica de Telmo é a sua crença e superstição, pois acredita no Sebastianismo; crença que desvanece ao longo da evolução psicológica do indivíduo pois a divisão interior é mais significativa; sabendo que o regresso de D. Sebastião implica o regresso de D. João de Portugal, Telmo deixa de acreditar na concretização do mito sebastianista (o que contradiz o seu carácter patriótico), deste modo aquele que foi tão desejado, por Telmo, deixa de o ser pois a sua vinda é a desgraça de Maria, aquela que Telmo decide ser a sua agraciada. Factor que demonstra grande ambiguidade sentimental.

 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Biografia e Bibliografia de Almeida Garrett - Mod 7



Quem foi?
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto em 1799 e faleceu em Lisboa em 1854 . Em 1809 partiu para a ilha Terceira devido às invasões francesas.
A vida
Na infância recebeu uma formação religiosa e clássica.
Concluiu o curso de Direito em Coimbra, onde aderiu aos ideais do liberalismo.
Em 1823, após a subida ao poder dos absolutistas, é obrigado a exilar-se em Inglaterra onde inicia o estudo do romantismo (inglês), movimento artístico-literário então já dominante na Europa.
Regressa em 1826 e passa a participar na vida política; mas tem de exilar-se novamente em Inglaterra em 1828, depois da contra-revolução de D. Miguel.
Em 1832, na Ilha Terceira, incorpora-se no exército liberal de D. Pedro IV e participa no cerco do Porto.
Exerceu funções diplomáticas em Londres, em Paris e em Bruxelas. Após a Revolução de Setembro (1836) foi Inspector-geral dos Teatros e fundou o Conservatório de Arte Dramática e o Teatro Nacional.
Com a ditadura cabralista (1842), Garrett é posto à margem da política e inicia o período mais fecundo da sua produção literária. Durante a Regeneração (1851) recebe o título de visconde e é nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros.

A Obra
Tem o grande mérito de ser o introdutor do Romantismo em Portugal ao nível da criação textual - processo que iniciou com os poemas Camões  (1825) e D. Branca  (1826).
Ainda no domínio da poesia são de destacar o Romanceiro  (recolha de poesias de tradição popular cujo 1.º volume sai em 1843), Flores sem Fruto  (1845) e a obra-prima da poesia romântica portuguesa Folhas Caídas  (1853) que nos dá um novo lirismo amoroso.
Na prosa, saliente-se O Arco de Sant’Ana  (1.º vol. em 1845 e 2.º em 1851), romance histórico, e principalmente as suas célebres Viagens na Minha Terra  (1846). Com este livro, a crítica considera iniciada a prosa moderna em Portugal.
E quanto ao teatro, deve mencionar-se Um Auto de Gil Vicente  (1838), O Alfageme de Santarém  (1841) e sobretudo o famoso drama Frei Luís de Sousa  (1844).