quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Caracterização dos personagem em "Frei Luis de Sousa"

Maria de Noronha

Uma personagem idealizada:

- A ingenuidade, a pureza, a meiguice, o abandono, etc., próprios duma alma infantil, e a inteligência, a experiência, a cultura, a intuição, características de um espírito adulto, confluem numa personagem pouco real, só entendida à luz do desvelo que Garrett votava a sua filha Maria Adelaide e à condição social que, para a mesma, resultara da morte prematura da mãe;
- Protótipo da mulher-anjo, tão do agrado dos românticos, Maria é demasiado angélica para ser verdadeira;
- A sua dimensão psicológica resulta, por isso, contraditória, ao revelar comportamentos, simultaneamente, de criança e de adulto;

 Alguns traços caracterizadores de Maria:
- Ternura
- Culto sebastianista
- Dom de sibila (dom da profecia)
- Cultura
- Coragem, ingenuidade e pura
- Tuberculose


Manuel de Sousa Coutinho  

 

Nobre, cavaleiro de Malta
- No acto I, assume uma atitude condizente com um espírito clássico, deixando transparecer uma serenidade e um equilíbrio próprios de uma razão que domina os sentimentos e que se manifesta num discurso expositivo e numa linguagem cuidada e erudita:
- Revela-se patriota, corajoso e decidido;
- Não sente ciúmes pelo passado de Madalena;
- No acto III, evidencia uma postura acentuadamente romântica: a dor, após a chegada do Romeiro, parece ofuscar-lhe a razão, tal é a forma como exterioriza os seus sentimentos, fazendo-o de uma forma um tanto violenta, descontrolada e, por vezes, até contraditória (a razão leva-o a desejar a morte da filha e o amor impele-o a contrariar a razão e a suplicar desesperadamente pela sua vida);
- Pode-se, pois, concluir que esta personagem, do ponto de vista psicológico, evolui de uma personalidade de tipo clássico (actos I e II) para uma personalidade de tipo romântico (acto III).



 D. Madalena de Vilhena


 Uma mulher bem-nascida, da família e sangue dos Vilhenas, os sentimentos dominam a razão:
Não é uma figura típica da época clássica, em que vive, em oposição ao que acontece com Manuel de Sousa. Toda a ordem abstracta de valores encontra nela uma ressonância pouco profunda, todo o idealismo generoso se empobrece dentro dos limites de um seu conceito prático, objectivo, pessoal de felicidade imediata, toda a espécie de transcendência choca, numa zona muito íntima da sua personalidade, com uma aspiração vitalista de realização humana e terrena.
- O sentimento do amor à Pátria é praticamente inexistente: considera a atitude dos governadores espanhóis como uma ofensa pessoal;
- Para ela, é inaceitável que o sentimento do amor de Deus possa conduzir ao sacrifício do amor humano, não compreendendo, nem aceitando a atitude da condessa de Vimioso que abandonou o casamento para entrar em votos: isto explica que, até ao limite, tente dissuadir o marido da tomada do hábito, só se resignando quando tem a certeza de que ele já foi;
- Apesar de se não duvidar do seu amor de mãe, é nela mais forte o amor de mulher, ao contrário do que acontece com Manuel de Sousa Coutinho, que se mostra muito mais preocupado com a filha do que com a mulher;
- A consciência da sua condição social mantém a sua dignidade, mas tal não impediu de ter amado Manuel de Sousa ainda em vida de D. João de Portugal e de ter casado com aquele sem a prova material da morte deste.



Frei Jorge Coutinho



Frei Jorge, irmão de Manuel de Sousa Coutinho, frade domínico. Primando pela serenidade, representa o consolo cristão, a fé como aceitação de todas as coisas, porque crê que as situações com que os homens se deparam escapam à sua compreensão, mas espelham a vontade de Deus. Pelo seu papel de confidente, que o leva a manifestar-se sobre os acontecimentos, desempenha, como Telmo Pais, um papel semelhante ao do coro das tragédias clássicas antigas.




D. João de Portugal - Romeiro

D. João foi guerreiro na Batalha de Alcácer Quibir, sob as ordens de el-rei D. Sebastião. É uma personagem que a nível bélico é considerada espelho de cavalaria.

Possui um carácter forte e decisivo, rígido e em certa parte vingativo, (sendo este rancor vencido pela benevolência, pela pureza e pela bondade). É desejado e invocado consequentemente por Telmo seu aio, que numa evolução psicológica final, contraria os sentimentos demonstrados nas acções anteriores. Quando regressa para demonstrar a fidelidade e lealdade a Madalena depara-se com factos que o surpreendem alterando o seu objectivo principal. Nesse momento D. João sente um grande vazio interior, pois não tem nem família, nem parentes, apenas um amigo (Telmo) que o deixou de ser da forma que outrora o foi.

Em relação aos aspectos físicos D. João possui barbas e cabelos compridos, que seriam demasiado alvos em relação à sua idade. Com traços faciais carregados. As vestes elementares e deterioradas, acompanhadas de um bordão com as conchas de San Tiago, símbolo dos peregrinos. Tendo em conta, que no passado foi um elegante e aposto cavaleiro moço.

 
 
  
 
 
 
 
 
 Enquanto D. João de Portugal                                                                    Enquanto Romeiro
 
 
Telmo Pais
A personalidade de Telmo é caracterizada pela grande cultura adquirida ao longo dos anos através da sociabilização e dos livros, tendo em conta que foi aio e escudeiro de D. João de Portugal e camarada de seu pai. No desenrolar da obra, Telmo, apresenta a sua personalidade dividida enquanto ao amor e à fidelidade que sente pela sua escolar Maria (fruto do segundo casamento de Madalena, de que Telmo não concordou) e pelo seu outro educando, D. João de Portugal.
Outra característica psicológica de Telmo é a sua crença e superstição, pois acredita no Sebastianismo; crença que desvanece ao longo da evolução psicológica do indivíduo pois a divisão interior é mais significativa; sabendo que o regresso de D. Sebastião implica o regresso de D. João de Portugal, Telmo deixa de acreditar na concretização do mito sebastianista (o que contradiz o seu carácter patriótico), deste modo aquele que foi tão desejado, por Telmo, deixa de o ser pois a sua vinda é a desgraça de Maria, aquela que Telmo decide ser a sua agraciada. Factor que demonstra grande ambiguidade sentimental.

 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Biografia e Bibliografia de Almeida Garrett - Mod 7



Quem foi?
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto em 1799 e faleceu em Lisboa em 1854 . Em 1809 partiu para a ilha Terceira devido às invasões francesas.
A vida
Na infância recebeu uma formação religiosa e clássica.
Concluiu o curso de Direito em Coimbra, onde aderiu aos ideais do liberalismo.
Em 1823, após a subida ao poder dos absolutistas, é obrigado a exilar-se em Inglaterra onde inicia o estudo do romantismo (inglês), movimento artístico-literário então já dominante na Europa.
Regressa em 1826 e passa a participar na vida política; mas tem de exilar-se novamente em Inglaterra em 1828, depois da contra-revolução de D. Miguel.
Em 1832, na Ilha Terceira, incorpora-se no exército liberal de D. Pedro IV e participa no cerco do Porto.
Exerceu funções diplomáticas em Londres, em Paris e em Bruxelas. Após a Revolução de Setembro (1836) foi Inspector-geral dos Teatros e fundou o Conservatório de Arte Dramática e o Teatro Nacional.
Com a ditadura cabralista (1842), Garrett é posto à margem da política e inicia o período mais fecundo da sua produção literária. Durante a Regeneração (1851) recebe o título de visconde e é nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros.

A Obra
Tem o grande mérito de ser o introdutor do Romantismo em Portugal ao nível da criação textual - processo que iniciou com os poemas Camões  (1825) e D. Branca  (1826).
Ainda no domínio da poesia são de destacar o Romanceiro  (recolha de poesias de tradição popular cujo 1.º volume sai em 1843), Flores sem Fruto  (1845) e a obra-prima da poesia romântica portuguesa Folhas Caídas  (1853) que nos dá um novo lirismo amoroso.
Na prosa, saliente-se O Arco de Sant’Ana  (1.º vol. em 1845 e 2.º em 1851), romance histórico, e principalmente as suas célebres Viagens na Minha Terra  (1846). Com este livro, a crítica considera iniciada a prosa moderna em Portugal.
E quanto ao teatro, deve mencionar-se Um Auto de Gil Vicente  (1838), O Alfageme de Santarém  (1841) e sobretudo o famoso drama Frei Luís de Sousa  (1844).

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Padre António Vieira "Sermão de Santo António aos Peixes"-Repreesões aos peixes- MOD 6

Defeitos dos Peixes

RONCADORES
- embora tão pequenos roncam muito (simbolizam a arrogância e a soberba);














PEGADORES
- sendo pequenos, pregam-se nos maiores, não os largando mais (simbolizam o parasitismo);
















VOADORES
- sendo peixes, também se metem a ser aves (simbolizam a presunção, vaidade e a ambição).




















POLVO
- com aparência de santo, é o maior traidor do mar (simboliza a traição).


Padre António Vieira "Sermão de Santo António aos Peixes"- MOD 6

Sermão de Santo António aos Peixes

O Sermão de Santo António aos Peixes foi proferido na cidade de São Luís do Maranhão em 1654, na sequência de uma disputa com os colonos portugueses no Brasil.
O Sermão de Santo António aos Peixes constitui um documento da surpreendente imaginação, habilidade oratória e poder satírico do Pe. António Vieira, que toma vários peixes (o roncador, o pegador, o voador e o polvo) como símbolos dos vícios daqueles colonos.


Com uma construção literária e argumentativa notável, o sermão louvar algumas virtudes humanas e, principalmente, censurar com severidade os vícios dos colonos.
Este sermão foi pregado três dias antes de Padre António Vieira embarcar ocultamente para Portugal, para obter uma legislação justa para os índios.
Todo o sermão é uma alegoria, porque os peixes são a personificação dos homens








Louvores em Geral

-São obedientes, ouvem e não falam:

"aquela obediência, com que chamados acudistes todos pela honra de vosso
Criador e Senhor", "ouvem e não falam"

- Foram os primeiros animais a serem criados

"vós fostes os primeiros que Deus criou"

-São os mais numerosos e os mais volumosos

"entre todos os animais do mundo, os peixes são os mais e os maiores"

-Não são domesticáveis, presos, virgens.

"só eles entre todos os animais não se domam nem domesticam"


Louvores em Particular

Peixe Tobias

-Cura a cegueira ("(...) sendo o pai de Tobias cego, aplicando-lhe o filho aos olhos um     pequeno do fel, cobrou inteiramente a vista;");

-Expulsa os demónios ("(...) tendo um demónio chamado Asmodeu morto sete maridos a Sara, casou com ela o mesmo Tobias; e queimando na casa parte do coração, fugiu dali o demónio e nunca mais tornou;")

           














Rémora

Um peixe pequeno mas tem muita força. Representa a soberba.

A fraqueza e nada com que luz("(...) se se pega ao leme de uma nau da índia (...)a prende e amarra mais que as mesmas âncoras, sem se poder mover, nem ir por diante."

"Oh se houvera uma rémora na terra, que tivesse tanta força como a do mar, que menos perigos haveria na vida, e que menos naufrágios no mundo!"
"(...) a virtude da rémora, a qual, pegada ao leme da nau, é freio da nau e leme do leme”















Torpedo

Peixe que faz descargas eléctricas para se defender. Representa a vingança.

Faz abanar, faz passar a dout, o bom e a virgindade do Espírito Santo

"Está o pescador com a cana na mão, o anzol no fundo e a bóia sobre a água, e em lhe picando na isca o torpedo, começa a lhe tremer o braço. Pode haver maior, mais breve e mais admirável efeito? De maneira que, num momento, passa a virtude do peixezinho, da boca ao anzol, do anzol, à linha, da linha à cana e da cana ao braço do pescador"














Quatro olhos

Vê para cima e para baixo. Representa a capacidade de distinguir o bem do mal
(céu/inferno).

A Vigilância, providência
"Esta é a pregação que me fez aquele peixezinho, ensinando-me que, se tenho fé e uso da razão, só devo olhar direitamente para cima, e só direitamente para baixo: para cima, considerando que há Céu, e para baixo, lembrando-me que há
Inferno" (Senão por amor a Deus (cima), então, por repúdio ao inferno (baixo))